[Review] O Gângster

Quando eu paro para pensar sobre um filme de máfia, ou mesmo de chefões do crime, sempre me vem a mente o nome de Martin Scorsese. Não é a toa, já que ele é responsável por Gangues de Nova York e Os Infiltrados, mas por mais aclamados que seus filmes sejam ainda falta uma pitada de humanidade – sabe aquele pé no chão? – que eu encontro nos filmes de Ridley Scott. E com seu O Gângster (American Gangster), Scott reflete bem o convívio dos suburbios com dois personagens marcantes.

Não é fácil gerenciar uma organização que se prevalece do tráfico de armas ou drogas, ainda mais com tantos inimigos querendo a mesma coisa. Imagine então, o motorista de um dos maiores chefões do crime ver seu ‘boss’ morrer e ter um caminho livre para continuar os negócios. Este é Frank Lucas (Denzel Washington), que conhece todos os esquemas do tráfico na palma da mão, as manias e armadilhas que o antigo ‘mestre’ lhe ensinou durante anos. Basta ele ter a calma necessária para colocar seu plano em prática e construir seu domínio, acima até mesmo do antigo chefão.

Do outro lado, está Richie Roberts (Russell Crowe), um dos poucos policiais honestos que trabalha para a corregedoria contra os mafiosos da cidade e investiga a fundo o tráfico de narcóticos, e quer por as mãos no atual chefão que está vendendo uma droga mais pura e mais barata que os outros, e está faturando rios de dinheiro com isso. Em uma das primeiras cenas de Richie, vemos o quanto ele é a favor da lei e, nem mesmo um porta-malas de um carro forrado de dinheiro, o faz desistir de caçar os responsáveis. Fato este que o coloca a frente da investigação contra Frank.

A briga entre polícia e ladrão começa quando Richie investiga quem são as pessoas corruptas da cidade a partir da morte do grande chefão do crime Bumpy Johnson (Clarence Williams III), desde os pequenos bandidos até o atual chefão. Frank, por outro lado, sabendo de todos os negócios de Bumpy e conhecendo quem devia dinheiro ao caixa, começa a cobrar de cada um o pagamento de sua parte, assim como investe em um novo mercado para as drogas: sua Mágica Azul.

É aqui que o filme se destaca dentre tantos outros. O diretor de Alien, Blade Runner e Gladiador – só para citar alguns clássicos -, Ridley Scott, faz o que sabe de melhor: dirigir pessoas. Além de roteiros profundos e bem trabalhados, Ridley sabe conduzir as pessoas à frente das câmeras e, com dois astros vencedores do Oscar, não fica muito complicado em fazer um filme excelente. Vemos claramente a grande briga do bem e do mal retratados ali na tela, estampados em Frank e Richie e a obsessão de cada um para conseguir chegar ao resultado.

No decorrer do filme, Ridley nos mostra o conflito que cada um tem com suas famílias ao se exporem tanto ao trabalho e o que isso acarreta. Quando menos se espera, Denzel e Russell ficam frente a frente em um dos diálogos mais trabalhados – e marcantes – do filme. Aquele climax só fica perfeito quando ambos trocam insultos de maneira polida e sarcástica, deixando uma pergunta vaga no ar, até quando um deles irá sobreviver? Ilusão que o próprio diretor coloca ao mostrar uma luta entre Mohammed Ali e Joe Frazier dentro do filme. Uma metalinguagem que só Ridley consegue fazer.

Um filme com atores do Oscar, um diretor de clássicos e também vencedor, além de um elenco de apoio fantástico não poderia deixar passar batido por aqui. Ainda mais, na versão dublada do filme, Guilherme Briggs empresta e comanda a voz de Denzel – assim como ele fez em Déjà Vu e Dia de Treinamento. Nota 9,5 fácil.

Leo Luz quer mais filmes de Denzel. E filmes bons!

daumpy Johnson (uncredited)

About the Author

Leo Luz

Jornalista, fotógrafo e admirador de cultura japonesa. Gosta de jogos, mas sua paixão são as HQs. E os livros. E filmes.

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